Notícias

Boas-Vindas aos Cubanos - Dr. José J. Camargo

Quarta-feira, 30 de Outubro de 2013

Boas-Vindas aos Cubanos

José J. Camargo – Professor de Cirurgia Torácica da UFCSPA e membro titular da  Academia Nacional de Medicina

Nada faz menos sentido do que tratar mal aos médicos cubanos. Afinal, eles já têm sido maltratados desde sempre, sob uma ditadura feroz que já dura 54 anos, que os obriga a sair pelo mundo como brancaleones da saúde e arrecadar fundos para um regime que os trata sim como escravos, não lhes dá o direito elementar de ir e vir, e mantém suas famílias como reféns.

Mesmo com o salário substancialmente surrupiado pelo governo, o que sobra ainda parece interessante aos olhos dos que cresceram no limite da miséria. Afinal, em Cuba os médicos ganham cerca de 1/3 do salário que receberão aqui, mesmo depois da rapina do governo que os enviou em busca de recursos para a pátria mãe.

Por isso não vamos exigir demasiado deles. Ninguém consegue produzir muito com o seu trabalho desvalorizado. Nem o comunista mais convicto. A propósito, não esperem encontrar muitos comunistas entre eles. É de praxe odiar quem nos trata como mercadoria barata. Também não se justifica acusa-los de subtreinamento médico, porque para o tipo de medicina que lhes será reservado exercer nos nossos rincões, qualquer conhecimento elementar já será demasiado.

Precisamos apenas alertá-los para que se limitem à prescrição de analgésicos e antitérmicos e não percam tempo em solicitações de exames, porque eles não terão onde serem feitos. Por outro lado, que não insistam em tentar encaminhar os casos aparentemente mais graves para hospitais de referência, porque se forem de referência para alguma coisa, estarão lotados. Que eles descubram logo que entre prescrever um medicamento e o paciente utilizá-lo, há o abismo da falta de dinheiro para a compra. No começo eles poderão até considerar que o salário é exagerado por tão pouco a ser feito, mas logo depois perceberão que nenhum salário consegue compensar a assistência passiva de mortes perfeitamente evitáveis.

Antes de crucifica-los como se fossem responsáveis por esta cruzada demagógica, pensem no enorme sacrifício que eles enfrentaram para receber como prêmio o privilégio de vir ao Brasil e, sem uma família como retaguarda, se expor aos horrores de uma infraestrutura doente de burocracia, carente dos recursos mais elementares, e que está acostumada a transferir para os médicos os problemas que não consegue resolver. Mesmo assim, muitos deles tentarão constituir família por aqui, na expectativa de que este vínculo favoreça a obtenção futura de um visto de permanência. Se isso não for possível, restará pelo menos uma reminiscência carinhosa.

Não se sabe quantos deles já participaram da expedição colombiana, para onde foram exportados mais de três mil médicos, e depois de um ano, dois terços já tinham abandonado o país e o outro terço, trabalhava irregularmente na periferia de Bogotá. Pouco provável que com realidades semelhantes tenhamos desfechos diferentes.

Ao vê-los desembarcar com aquela euforia de quem não respirava livremente há muito tempo, o ar de encantamento de quem sente prazer em ajuda, e o deslumbramento com a grandeza do país que os recruta com promessas que não tem como cumprir, repudiei as vaias estúpidas, e senti vontade de abraça-los e pedir desculpas antecipadas.

O ministro anunciou que eles não devem sentir vergonha por não falar português porque lhes será dado um curso preparatório do idioma por três semanas, e um governador esbanjou convicção de que o povo quer médico, qualquer médico. Por favor, não interpretem qualquer como depreciativo. Foi apenas um destempero verbal.

É desagradável parecer pessimista, mas dentro de um ano, eles saberão o porquê das desculpas. Uma pena que quando isso ocorrer o povo já terá votado em quem pareceu genuinamente preocupado com a saúde dele!